Em Nápoles, o barulho das ruas não deixava que as pessoas entendessem o que as outras diziam

Os italianos são conhecidos por falar com as mãos. “Nós usamos 250 gestos diariamente. Temos um código linguístico que é um dos mais complexos e ricos do mundo”, orgulha-se o produtor de cinema italiano Luca Vullo. “Com certeza, nós conseguimos nos comunicar um dia inteiro sem usar uma única palavra.”

O costume é presente principalmente no sul da Itália e entre as classes mais baixas. Em parte, o hábito foi importado da Grécia, já que o sul da Itália foi colonizado por gregos no século IV a.C, e do norte da África. Mas também é inegável que existe um patrimônio compartilhado por todos o Mediterrâneo. “Há muitos gestos em comum entre o sul da Itália, o sul da França e o sul da Espanha, assim como nas zonas mediterrâneas do Marrocos, da Tunísia, do Egito, da Turquia, da Grécia e do Irã“, diz o cientista inglês Adam Kendon, um dos maiores especialistas em linguagem gestual.

Não foram feitos estudos comparativos dos sinais produzidos pelas mãos nessas regiões, mas uma possível explicação é que na região do Mediterrâneo havia muitos povos, que falavam línguas diferentes. Como eles faziam muito comércio entre si, precisaram arrumar uma maneira de se comunicar. As mãos foram fundamentais para que as trocas pudessem ocorrer.

Entre os outros fatores que Kendon lista para explicar esse fenômeno está a arquitetura. Em seu artigo Gesto e Ambiente em Nápoles, escrito em 1993 mas ainda não publicado, ele argumenta que a proximidade das casas e o espaço exíguo dentro delas levou os napolitanos a viverem a maior parte do tempo do lado fora, nas ruas, as quais eram muito barulhentas.

“Nápoles atraiu muita gente e cresceu muito, especialmente no final do século XVIII, até se tornar uma das cidades mais densas da Europa”, escreveu Kendon. O lugar então virou uma confusão de sons, com vendedores ambulantes, show de marionetes, contadores de histórias, procissões religiosas e carruagens. O resultado foi que os indivíduos passaram a ter de competir, uns com os outros, por atenção.

Com os gestos, era possível se comunicar mesmo que com muito barulho e a distância. Da sacada, donas de casa faziam transações com vendedores nas ruas utilizando “metade palavras, metade gestos“. Um balde subia com o produto por uma corda e descia com o dinheiro.

Nas ruas da Itália, é comum que as pessoas acompanhem as conversas dos outros, apenas observando de longe. Ao mesmo tempo, elas também podem se expressar de uma maneira que outros indivíduos, até desconhecidos, saibam o conteúdo do que está sendo falado.

Segundo o escritor italiano Luigi Barzini, citado por Kendon: “Um italiano pode falar palavras graves e sinceras e, ao mesmo tempo, olhar com o canto do olho para checar a impressão que estão fazendo no seu público”.

Com a migração para a América no século XX, muitos napolitanos foram parar em São Paulo, Nova York e Buenos Aires. O hábito de falar com as mãos acabou indo junto com eles.

Fonte: Revista Veja